A Face do Silêncio — Capítulo 1
- Shirley Nogueira dos Santos
- 30 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de abr.
Olá, queridos leitores!
Vou começar a postar trechos dos meus livros aqui para aguçar a curiosidade de vocês para as minhas histórias. Pensei em postar um capítulo por semana, como se fosse uma série da Netflix.
A Face do Silêncio
Sinopse:
Um silêncio que abriga um grito. Uma melodia que pode quebrar correntes.
Rio de Janeiro, 1947. O investigador Álvaro Duarte encontra na Praia do Flamengo uma jovem brutalizada, à beira da morte. Ela não tem documentos, não tem história, não tem voz. Apenas um olhar vazio que esconde um abismo de horror. Apelidada de “Sereia” pela equipe da Clínica Santa Helena, ela é um mistério envolto em silêncio.
Para o Dr. Thomas Whitmore, um psiquiatra inglês fugindo dos fantasmas da guerra, a Sereia se torna seu maior desafio e sua única esperança. Enquanto ele usa a música para tentar alcançá-la, desafiando os métodos cruéis do diretor da clínica, uma ameaça sombria e poderosa ronda os corredores da Santa Helena, disposta a silenciá-la para sempre.
Neste romance comovente e eletrizante, um homem e uma mulher precisam confrontar as sombras do passado para encontrar a luz. A Face do Silêncio é uma história sobre a resistência da alma humana, a força curativa da arte e a coragem de encontrar a própria voz no meio do caos.
[NOTA PESSOAL DA AUTORA]
“‘A Face do Silêncio’ nasceu das cinzas do meu próprio luto e da luta pela minha saúde mental. Como uma mulher brasileira que sobreviveu à violência e encontrou em Nise da Silveira um farol de esperança, esta história foi minha forma de dar uma nova voz à minha jornada. É uma obra de ficção, mas a sua verdade mais profunda é a da resiliência que habita em nós.”
Recomendado para leitores a partir de 16 anos devido à presença de temas sensíveis.



1 – A Mulher sem Nome
(Interlúdio)
O sol ainda era uma promessa por trás dos morros quando o investigador Álvaro Ferraz Duarte pisou na areia fria da Praia do Flamengo. Com os seus quarenta anos e ombros largos de quem já viu de tudo. O ar carregava o cheiro familiar de maresia misturado ao doce pesado dos jasmins que cresciam nos muros dos casarões. A cidade, gradualmente, despertava. Um bonde da linha Circular batia os seus ferros nos trilhos com um rangido cansado, os primeiros pescadores puxavam as suas canoas para a areia, as suas vozes roucas cortando a quietude do amanhecer.
— Vai ser mais um dia de cão. — O Álvaro resmungou para si, acendendo um cigarro barato.
O Álvaro caminhava com os passos arrastados de quem carregava o peso de muitas madrugadas iguais. A vida de policial no Rio de Janeiro do pós-guerra era um eterno entrar em conflito, a miséria e a violência que a “belle époque” carioca teimava em esconder. Foi quando o seu olhar, acostumado a ler os covis da cidade, captou uma anomalia na paisagem serena. Junto às raízes expostas de um velho coqueiro e vegetação de restinga, um vulto claro parecia mais um embrulho abandonado.
Ao se aproximar, o coração, já calejado, apertou-se num punho de gelo. Não era um embrulho. Era uma mulher. Enrolada sobre si mesma, como uma criança que busca refúgio, ela estava ali, a fina camisa de linho branco rasgada em vários lugares, revelando na pele negra como ébano uma constelação de hematomas violáceos e cortes superficiais. As saias, outrora elegantes, agora eram trapos encharcados de orvalho e sal. Os pés descalços, finos e longilíneos, estavam calejados e sujos de lama e areia.
— Santo Cristo… — murmurou ele, ajoelhando-se rapidamente.
Todavia, o que mais cortou o investigador foi o silêncio. Ela não gemeu, não se moveu quando a sua sombra a cobriu. Os seus olhos, enormes e escuros, estavam abertos, fixos num ponto distante do mar, sem ver nada. Era um olhar de abandono total, como se a alma tivesse fugido, deixando para trás somente uma casca vazia e brutalizada.
Uma fúria surda brotou no peito do Álvaro. Conhecia os sinais. A violência da cena falava por si, aquela jovem, de uma beleza etérea e trágica, havia sido espancada e violentada.
Ajoelhou-se ao lado dela, tocando-lhe o pulso com uma delicadeza que contrastava com as suas mãos calejadas. O batimento era fraco, um fio de vida teimoso. Não podia ter mais de dezoito ou dezenove anos. A pele retinta contrastava brutalmente com os ferimentos roxos e as roupas rasgadas. Mesmo naquela violência toda, os traços dela possuíam uma delicadeza angustiante.
— Minha filha… — sussurrou, sem saber se ela ouvia — O que fizeram com você, coitadinha?
A única resposta foi o som suave das pequenas ondas quebrando na praia. O contraste era cruel, a imensidão tranquila e azul do mar contra a violência íntima daquela vida destruída. Ele notou, então, que ela não tinha documentos, nenhuma identidade além da dor estampada no corpo.
Um pescador aproximou-se, curioso.
— Tá viva, doutor?
— Tá, mas por um fio. Vá chamar ajuda, depressa!
— Não vai dar tempo, não. O senhor precisa levar ela no seu próprio veículo.
Uma urgência tomou conta do Álvaro. Não podia levá-la à delegacia, não naquele estado. Lembrou-se da Lídia, a sua esposa, assim como da clínica onde ela trabalhava, o Santa Helena.
— Vou levar ela pra um lugar seguro. — murmurou, mais para si do que para o pescador.
Com um cuidado infinito, como se carregasse um objeto de vidro, o Álvaro a levantou nos braços. Ela era leve, quase insubstancial. O seu corpo inerte exalava um cheiro misto de sal, sangue seco e um perfume fraco e doce de flor de laranjeira.
— Aguenta firme, minha filha. Não vou deixar que te façam mais mal.
Enquanto a carregava pela orla, em direção ao seu automóvel estacionado na Avenida Beira-Mar, o investigador não pôde evitar a sensação de que carregava não simplesmente uma vítima, mas um profundo mistério. Assim, nos corredores silenciosos da sua mente, uma pergunta ecoava: quem era aquela sereia negra que o mar cuspira na praia, vestida unicamente de horror e silêncio?
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